terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Igreja Românica de Arões – “Jóia da coroa” do património local

Opinião: 
COIMBRA, A. Ferreira, FAFE: A TERRA E A MEMÓRIA, p. 117-121, Câmara Municipal de Fafe, Braga ,1997, ISBN: 972-95027-9-X

Roteiro dos Principais Motivos Patrimoniais

« O único monumento Nacional existente em todo o concelho remonta ao século XIII, integrando-se no estilo artístico designado por românico, embora tardio, com diversas alterações à fábrica inicial, nos séculos mais recentes. Dessa época e escola artística, será igualmente a Igreja de S. Gens, de que restam apenas alguns elementos da traça original. De factura rude e simples, é um dos mais lídimos exemplares do românico do noroeste: as paredes fortemente maciças, a baixa altura do edifício, os arcos redondos, de volta inteira, a reduzida luminosidade interior. É um estilo artístico que coincide com a afirmação de Portugal como país independente, em plena Reconquista cristã, em que a segurança se assume como factor imperativo e a religiosidade inunda as almas por essas aldeias fora.
A Igreja Matriz de Arões, de pequena dimensão, reflecte o espírito religioso da época, a um tempo humilde e altivo. Talvez a população da freguesia, na altura, fosse exígua e daí a reduzida expressão arquitectónica do templo.Ao tempo da construção da igreja – e segundo a opinião fundamentada do falecido Cónego Arlindo Ribeiro da Cunha (44) – são os Arões, descendentes do fundador da villa, Ero Fernandes, que foi avô de Hermenegildo Gonçalves, marido da Mumadona, a fundadora do Mosteiro de Guimarães, os senhores privilegiados das principais herdades da terra. É sabido que as villas eram em geral designadas pelo nome do proprietário-organizador, em genitivo e conhece-se o nome do magnate que no século IX e X fundou a villa ou «mandamento Arones», ou Aronis.
Foi então Ero Fernandes (45).
A igreja inclui no tímpano lateral sul, lado da epístola, uma inscrição aberta em granito que contém dados importantes para a datação do templo. Arlindo Ribeiro da Cunha, não sabe se a inscrição está completa, mas consegue-se ler:

«Abbas.dõn.Goms. – E. M.CC.LXX.V Mense – Marcio, XX. II Die mensis. De – C. – archiepo. Dño. Silvestro».

Estamos assim perante uma inscrição em latim onde figuram dois nomes próprios e uma data. A data refere-se a 22 do mês de Março da era de 1275 (que corresponde ao ano 1237 da era cristã, dado medearem 38 anos entre os dois calendários). Os nomes da inscrição são os do abade de Arões D. Gomes (Martins) e do arcebispo de Braga D. Silvestre (Godinho). O C. que aparece entre a terceira e a quarta linha da inscrição será a abreviatura de consecrata. O final daquele será então: Consecrata (ecclesia) ab archiepiscopo domino Silvestro. O que quer dizer, «sagrada pelo arcebispo Dom Silvestre». Portanto, 22 de Março de 1237 será, muito provavelmente, a data da sagração do templo. Não está posta de parte, no entanto, a hipótese de a capela-mor da igreja ser muito anterior a essa data. A decoração em pontas de lanças do arco triunfal tem semelhanças com idênticos elementos existentes no pórtico principal da Sé de Braga e na Igreja de S. Pedro de Rates, ambas edificadas no inicio do século XII (46). 1237, será portanto, a data da conclusão e sagração da encantadora igreja, cuja construção poderia ter decorrido desde o século anterior.
Ao longo dos anos, este Monumento sofreu diversas alterações que o desfiguraram de alguma maneira dos mais característicos elementos que o constituíam primitivamente. Conhecemos a Igreja de Arões de hoje e temos elementos informativos para saber como ficou no final do século XVIII. Como era até aí, apenas podemos depreender.
Era um templo pequeno, robusto, com escassa luz, sem torre sineira e sem sacristia. Teria, como tem, uma nave apenas e a capela mor, separada por um lindíssimo arco triunfal, decorado.
No principio do século XVIII, em 1726, o vimaranense Francisco Craesbeeck escrevia que a igreja de São Romão de Arões he abbadia do Padroado Real (…) He seo abbade o Padre João Coelho de Barros. Tem sacrário, mas não tem camppas com letreiros, e tem filial a cappella de Nossa senhora da Conceição (…(47) ).

Na época barroca, o enriquecimento do país e da região, fruto em grande parte da revolução do milho, o aumento demográfico e as novas exigências do culto religioso advenientes da Contra-Reforma, têm como consequência a construção de torres sineiras, bem como a criação de espaços para a guarda das alfaias das confrarias, além da abertura de janelas para entrar luz. Aconteceu isso no nosso concelho, e entre outras, com a Igreja de Santa Eulália, que ganhou duas torres laterais e com as igrejas de Armil e de Cepães, estas no início do século XVIII.
A igreja do S. Romão de Arões não fugiu à regra e foi objecto de obras de vulto no último quartel do século XVIII(48) . Em 26 de Maio de 1777, as seis confrarias residentes na Igreja de Arões (Santíssimo Sacramento, Santo António, Santo Nome de Deus, São Sebastião, Almas e Nossa Senhora do Rosário) contrataram, pela quantia de 69$000, com o mestre pedreiro local Miguel Pereira de Carvalho, do lugar da Torre, a obra de construção do novo «cofre», uma espécie de sacristia, espaço coberto ligado à igreja e que serviria para guardar os bens e pertences das confrarias e que seria localizada junto à parede lateral norte da capela-mor. Foi aí prevista a abertura de uma fresta de 17 palmos de comprimento por 15 de largo, para entrada da luz. Anos depois, em 17 de Setembro de 1786, a confraria do Subsino mandou executar uma torre sineira, ao mestre local João Nogueira, pela quantia de 96$000.
A torre teria dois sinos, rematados por um pequeno «monte», ladeado por duas pirâmides impuras, formadas por uma bola onde se sobrepunha um pequeno cone. Em 27 de Maio de 1787, foi celebrado mais um contrato, este para a execução de novas obras na igreja, concretamente, a trato, este para a execução de novas obras na igreja, concretamente, a abertura de um janelão na fachada principal. Era a propósito de iluminar o interior do templo, segundo os cânones das Constituições Sinodais de 1637, que determinavam que nas igrejas deveria haver «luz bastante» para que os actos litúrgicos se pudessem realizar convenientemente.
Já neste século, no final dos anos 40, a Igreja Românica de Arões foi objecto de obras de restauração e «depuração», relativamente aos «excessos» das obras oitocentistas. Foi a Direcção Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais que levou a cabo as obras que consistiram, basicamente: no apeamento da torre sineira construída no século XVIII e construção de uma outra, de menor vulto, mais conforme com a feição do monumento e diversamente situada; apeamento da grande janela com que fora substituída, na fachada principal, a fresta primitiva e reconstituição desta, mais de harmonia com as da época; demolição da sacristia junto da parede lateral norte da capela-mor, recomposição da parede e reabertura das suas duas antigas frestas; demolição total da parede que, modernamente, havia sido edificada ao fundo da capela-mor, com o fim de ampliar a respectiva planta e reconstituição da parede primitiva, sobre os alicerces medievais; consolidação do arco triunfal; recomposição geral da capela-mor e construção de um altar de granito, substituindo outro sem valor que havia substituído o que ali fora colocado na época da fundação; construção de um novo pavimento de lajes e de alguns degraus, no interior da igreja; reconstrução de várias frestas; reposição de alguns dos cachorros que adornam a cornija exterior; arranjo da nova sacristia, instalada no anexo existente entre o campanário e a parte externa da fachada norte; recomposição de todo o adro; substituição dos telhados; reparação geral do tecto de caixotões decorativos que recobre toda a nave; construção de nova escada de acesso ao coro e reposição dos altares laterais, junto ao arco triunfal.
Tratou-se, no fim de contas, de repor a possível situação arquitectónica medieval, descontado o campanário que veio do séc. XVIII.

Para o visitante dos nossos dias, aquele monumento apresenta diversos motivos de interesse. Exteriormente, na frontaria austera, o arco de volta inteira e o Angus Dei a encimar a porta principal; na fachada lateral sul, e no tímpano da porta, a interessante inscrição a que acima se fez referência; na cornija, o conjunto de cachorros com motivos diversificados. Já no interior, o arco triunfal de acesso à capela-mor é esplendoroso; é magnífico o tecto de caixotões; são belíssimos os retábulos dos altares laterais da nave, de apreciável valor histórico e iconográfico. Podem ainda apreciar-se vestígios de uma pintura mural de grande interesse.
Todos esses factores terão contribuído para que o Governo tenha classificado o imóvel como Monumento Nacional, em 1927 (Decreto 14 425, de 14 de Outubro).
Vale sempre a pena uma visita demorada ao templo de linhas sóbrias mas cativantes que é hoje como que a «jóia da coroa» do património local. »
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(44) CUNHA, Arlindo Ribeiro da Arões e a sua Igreja, Braga, edição do autor, 1950. Este livro surgiu como reacção ao volume nº 59 do «Boletim da Direcção Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais», sobre a Igreja de S. Romão de Arões, publicado em Março do mesmo ano. Justificação para o livro do Cónego Arlindo, cujo fito é contribuir para esclarecer as origens históricas da terra de Arões: «Aquilo (o Boletim), no ponto de vista histórico, é lastimoso. Não temos ali uma única notícia exacta e documentada. Unicamente afirmações tão peremptóreas como falhas de verdade objectiva. (…) Não quis se dissesse que a todos os leitores do Boletim, até aos da terra do monumento em estudo, se pode impingir gato por lebre, e é essa a única razão do presente trabalho» (p. 10).

(45)Ibidem, pp. 20-21. Como é que Ero dá Arões? Responde o Cónego Arlindo: (villa) Eronis > (terra de) Arões. «A explicação da passagem de Eronis a Arões não oferece dificuldades de monta. É normal a passagem a a do e junto do r e, quanto ao final da palavra todo o mundo sabe que leones deu leões» (p. 22)

(46) É ainda a opinião do Cónego Arlindo Ribeiro da Cunha. Ibidem, nora (2) da p. 43.

(47) CRAESBEECK, Francisco Xavier da Serra, Memórias Ressuscitadas da Provincia de Entre Douro e Minho no Ano de 1726, vol. I, Ponte de Lima, Edições Carvalhos de Basto, Lda., 1992, p. 234.

(48) Estas obras foram estudadas por Eduardo Pires de Oliveira, no seu texto «A Igreja Matriz de São Romão – Fafe e as suas alterações de arquitectura no séc. XVIII», publicado na obra Actas das Primeiras Jornadas de História Local…, pp. 335-365. Seguimo-lo de perto nesta parte da matéria

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